ARTICLE
10 September 2024

Direitos Autorais: Inteligência Artificial Altera Criação De Conteúdo

A materialização de ideias que anteriormente demandariam horas de trabalho nunca foi tão ágil quanto após a popularização das ferramentas de inteligência artificial (IA) generativas. Com a tecnologia atual.
Brazil Intellectual Property

A popularização das ferramentas de IA gera inovação e eficiência na produção artística e científica, mas levanta debates sobre autoria e proteção de obras

A materialização de ideias que anteriormente demandariam horas de trabalho nunca foi tão ágil quanto após a popularização das ferramentas de inteligência artificial (IA) generativas. Com a tecnologia atual, bastam alguns cliques e um prompt bem elaborado para que a IA nos entregue produções de qualidade impressionante, abrangendo não apenas criações literárias, mas também artísticas e científicas.

O que, há uma década, poderia ser visto como um mero truque tecnológico, hoje gera produções dignas de Hollywood, a uma fração do tempo e custo. Contudo, essas facilidades trazem consigo desafios significativos, especialmente no que diz respeito às implicações legais de sua utilização. Este artigo explora as nuances desse debate, examinando as questões centrais relacionadas à autoria, proteção, e os desafios legais emergentes no contexto da IA.

  • A IA como Criadora: Autoria e Originalidade

A questão central no debate entre IA e direitos autorais reside na definição de autoria. Tradicionalmente, o direito autoral protege obras originais criadas por indivíduos, reconhecendo-os como autores. Um exemplo disso é o conceito de "criações do espírito", disposto no art. 7º da Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/1998), que define as obras intelectuais passíveis de proteção. O caput do art. 11 reforça essa noção, estabelecendo que "autor é a pessoa física criadora de obra literária, artística ou científica."

Diante desse contexto, surge a incerteza quanto à autoria de obras geradas por IA, como músicas, pinturas ou textos. Quem é o autor? Algumas possibilidades são discutidas entre juristas: (i) as obras criadas pela IA estariam automaticamente em domínio público; (ii) a titularidade das criações geradas por IA seria atribuída aos desenvolvedores da ferramenta; ou (iii) ao usuário final da ferramenta.

Outro ponto relevante é a originalidade. As IAs generativas operam com base em algoritmos que analisam e combinam dados preexistentes, dependendo primariamente de uma vasta base de dados, muitas vezes composta por conteúdos protegidos por direitos autorais. É controverso se o uso de obras protegidas para fins de machine learning constitui ou não uma violação legal, especialmente devido à dificuldade em determinar se os outputs das ferramentas de IA generativas podem ser consideradas obras novas e originais, ou apenas compilações das informações de suas bases de dados.

Um dos casos mais relevantes dessa controvérsia é a disputa legal entre o banco de imagens Getty Images e a Stability AI, desenvolvedora de ferramentas de IA generativa. A Getty Images acusa a Stability AI de infringir mais de 12 milhões de fotografias, incluindo suas legendas e metadados associados, para treinar as ferramentas Stable Diffusion e o DreamStudio.

A disputa surgiu após a ferramenta de IA gerar uma imagem semelhante a uma fotografia de propriedade da Getty Images, reproduzindo inclusive trechos de sua marca d'água. A disputa está sendo apreciado pela Corte do Distrito de Delaware, nos EUA e, até a última edição deste artigo, não há uma decisão sobre a controvérsia.

  • Regulamentação da IA: Solução da Controvérsia?

Para solucionar as diversas controvérsias decorrentes da popularização das ferramentas de IA, a regulamentação dessas tecnologias torna-se cada vez mais urgente. Governos e organizações internacionais buscam estabelecer normas e diretrizes que assegurem um desenvolvimento e aplicação da IA de maneira ética, transparente e segura. Contudo, a criação de um marco regulatório eficiente para a IA é complexa, exigindo um equilíbrio cuidadoso entre a proteção dos direitos individuais e a promoção do progresso tecnológico.

No Brasil, o Marco Legal da IA é estabelecido pelo Projeto de Lei nº 2.338/2023, atualmente em fase de audiências públicas na Comissão Temporária Interna sobre Inteligência Artificial (CTIA). A última versão do texto, apresentado em 4 de julho, traz disposições relevantes na área de direitos autorais, como a obrigação dos desenvolvedores de IA de informar o uso de conteúdos protegidos no processo de treinamento da ferramenta, conforme disposto em regulamentação futura. Também será permitido aos autores proibirem a utilização de suas obras para fins de desenvolvimento de ferramentas de IA, além de obrigar os desenvolvedores a remunerarem os autores cujas obras protegidas sejam utilizadas no treinamento das IAs, prevenindo assim a exploração tecnológica em detrimento dos autores humanos.

Em contrapartida e para incentivar o desenvolvimento científico, o texto inclui novas exceções aos direitos autorais, permitindo o uso de materiais protegidos para fins não comerciais de pesquisa e desenvolvimento de sistemas de IA por instituições de pesquisa, jornalismo, museus, arquivos, bibliotecas e educacionais, respeitando critérios definidos na lei.

Por fim, o art. 65 do Marco Legal da IA prevê o estabelecimento de um ambiente regulatório experimental (sandbox) para os agentes dos sistemas de IA, com o intuito de definir o formato de transparência adequado quanto ao uso de conteúdos protegidos por direitos autorais, permitindo que a operação atual das ferramentas não seja imediatamente impactada pelas novas obrigações.

Embora a atual redação do Marco Legal da IA traga previsões importantes relacionadas à originalidade e forneça dispositivos legais eficazes para a proteção dos interesses dos autores humanos, o projeto de lei não define a condição de autoria das obras geradas por ferramentas de IA. Nesse sentido, é possível que essa definição venha por meio de novas emendas ao texto, ou futuramente por meio de uma revisão da Lei de Direitos Autorais, após o amadurecimento das discussões sobre este tema.

  • Conclusão

A evolução da inteligência artificial desafia as noções tradicionais de autoria e direitos autorais, exigindo uma reavaliação das leis vigentes. O Marco Legal da IA no Brasil é um passo importante, mas ainda deixa indefinida a questão da autoria das obras geradas por IA. A regulamentação futura precisará equilibrar a inovação tecnológica com a proteção dos direitos dos criadores humanos, garantindo um ambiente jurídico que valorize tanto a criatividade quanto a segurança legal.

Além disso, não se pode descartar a possibilidade de surgimento de novos modelos de negócios, como ocorreu com o Spotify, que permitam o licenciamento de conteúdos protegidos por seus respectivos detentores para desenvolvedores de sistemas de inteligência artificial. Diante da revolução tecnológica em curso, é possível que novas soluções venham a surgir para enfrentar os desafios inerentes à utilização de vastas bases de dados no treinamento e aprimoramento desses sistemas. Nesse ínterim, continuaremos a monitorar as emergentes discussões sobre o tema.

The content of this article is intended to provide a general guide to the subject matter. Specialist advice should be sought about your specific circumstances.

Mondaq uses cookies on this website. By using our website you agree to our use of cookies as set out in our Privacy Policy.

Learn More